Homem morre após esperar 3 meses por tratamento de câncer em SP

de G1

Familiares de um frentista, de 44 anos, que morreu após aguardar por três meses um tratamento em hospitais públicos contra um câncer na boca, em Praia Grande, no litoral de São Paulo, acusam o estado e o município de negligência. As pastas de Saúde negam qualquer erro e afirmam que prestaram toda assistência ao paciente.

Segundo a autônoma Eliude da Silva, de 46 anos, o marido Manoel Henrique de Souza foi diagnosticado com afta em maio deste ano, depois de procurar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade por causa de uma ferida na boca. Entretanto, após 15 dias o machucado piorou e ele teve febre. Ao retornar a UPA, exames foram feitos.

O resultado saiu após um mês e, nesse período, o frentista teve que ser internado por causa do quadro de saúde que havia se agravado. A mulher foi orientada a buscar um médico especialista, cuja consulta foi marcada uma semana depois. "Meu marido já não conseguia falar e estava parando de comer, só tomava líquido", lembra.

 

Diagnóstico

 

O exame confirmou que Manoel estava com câncer na boca. A consulta com um médico oncologista, especialista na doença, teria que ser no Ambulatório de Especialidades de Santos (SP). Havia mais dez dias de espera e ela procurou a ouvidoria da cidade por causa do estado do marido, mas afirma não ter recebido ajuda.

Enquanto os dois percorriam os hospitais da Baixada Santista, a vaga solicitada ao estado em hospital referência não havia sido disponibilizada. "Voltei, então, na Secretaria de Saúde de Praia Grande, pedindo 'pelo amor de Deus' que me ajudassem. Fui também à Defensoria Pública para tentar resolver, porque já estava desesperada".

Eliude conta que defensores conseguiram a consulta com o oncologista na Santa Casa de Santos e a radioterapia para tentar conter o avanço do câncer foi agendado. Manoel foi internado, mas morreu na segunda-feira (29) devido a complicações do quadro clínico, antes de iniciar o tratamento oferecido pelo sistema público.

"Muita dor e sofrimento. A tomografia demorou quase dois meses para sair. Peguei o resultado no dia que ele faleceu. Além disso, foram três meses para conseguir o tratamento. A garganta dele já estava tomada pelo câncer. Não fizeram nada pelo meu marido", desabafa a autônoma. Ela pensa em processar o estado e o município.

 

Estado e prefeituras

 

A Prefeitura de Praia Grande afirmou que realizou todos os procedimentos ao paciente, mas admite que as unidades de saúde da cidade não são referência para atendimento de oncologia. "Apesar disso, nesses locais, relata-se que o paciente foi prontamente atendido e as equipes passaram a solicitar uma vaga junto ao Cross", afirma.

O Cross é a Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde, administrado pela Secretaria de Estado de Saúde. Ainda de acordo com a municipalidade, foi disponibilizada uma vaga para o tratamento em um hospital na capital paulista, cuja primeira consulta estava marcada para terça-feira (30) - nesta data, Manoel foi sepultado.

A Prefeitura de Santos também declarou que prestou toda assistência possível ao paciente. Segundo o município, as consultas realizadas no município via estado foram todas atendidas, inclusive a marcação com especialista na Santa Casa da cidade e, posteriormente, o agendamento para sessões de radioterapia no paciente.

Já a Secretaria de Estado de Saúde informou que a solicitação de atendimento oncológico foi cadastrada na Cross por Praia Grande no dia 12 de julho e foi feito agendamento para quimioterapia no Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho para o dia 30 de julho, não procedendo que houve demora de três meses para atendimento. O Estado afirma que o paciente teve um agendamento em 3 de julho no Sambesp e se recusou a seguir o tratamento indicado nessa unidade, que era cirúrgico.